Caro Dino,

Infelizmente tivemos pouco contato, mas, minha amizade com teu pai me faz atrever a te mandar esta nota.

Na época em que eu ainda morava no Brasil, lá pelos idos dos anos 60, eu e teu pai fazíamos parte de um mesmo grupo de cinófilos, junto com Jaime Martinelli, João Antonio de Sá Brito, Marcello Motta, Bento Bellani e vários outros de uma grande lista. Não era um grupo formalmente organizado. Tampouco tinha regras ou qualquer tipo de

formalismos. Éramos apenas um grupo que se formou naturalmente, atraídos em razão de simpatia mútua, da associação de idéias e conceitos comuns que todos tínhamos sobre o nosso esporte.

Nos divertíamos muito com a cinofilia ingênua da época, embora tudo fosse feito com a mais absoluta seriedade. Era uma atividade amadora, onde quase que apostávamos pra ver quem perdia mais dinheiro com criação, exposições e tudo mais, mas tínhamos enorme prazer no convívio com os amigos, na amizade e cordialidade entre nós e, certamente, pelo respeito que nos pautava para tratar e ser tratado na cinofilia.

Os ratos andavam sempre ao nosso redor, claro, atraídos talvez porque éramos mesmo um grupo simpático e, como ratos não são bem vistos em lado nenhum, tentavam se aproximar. Entretanto jamais eram aceitos.

Rejeitados com simpatia, mas de forma firme e inapelável. Aqueles de nós que eram dirigentes de clubes nunca os convidavam para julgar ou para qualquer atividade. Os juízes entre nós, nem consideravam aceitar qualquer convite que viesse dessa caterva espúria. Mesmo os que apenas expunham seus cães, desprezavam eventos promovidos ou julgados por eles. A cinofilia era limpa, saudável e divertida e nos orgulhávamos disso.

Sem querer ser saudosista, fico perplexo em ver como tudo realmente mudou.

Retornei recentemente a São Paulo depois de muitos anos vivendo na Inglaterra e nos Estados Unidos e, recebendo um exemplar da “Cães de Fato”, li o texto sobre seus 50 anos de cinofilia e, claro, lembrei do teu pai, combativo e sério nas coisas sérias. Ele sentiria muito orgulho de você, pela tua perspicácia, observação e coragem. Com esse texto você demonstra estar fazendo excelente uso da herança que ele te deixou.

Senti uma certa nostalgia daquela época...

Um grande abraço,

Ricardo Torre Simões